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Nutricionistas pregam fim da ditadura fitness



Um movimento que prega o prazer de comer e a libertação do “terrorismo nutricional” ganha força nos consultórios. É a chamada “nutrição comportamental”, que procura ir além daquele modelo tradicional de dieta prescrita num plano alimentar. O conceito nasceu em 2014, quando cinco nutricionistas começaram a questionar por que, apesar de toda a informação disponível sobre nutrição e emagrecimento e da enorme variedade de dietas disponíveis, a obesidade continuava crescendo assustadoramente, conforme explica uma das fundadoras dessa corrente, Cynthia Antonaccio. Ela lembra que, no Brasil, mais da metade da população está acima do peso.

Assim como Cynthia, as outras nutricionistas envolvidas no projeto – Samantha Macedo, Marle Alvarenga, Manoela Figueiredo e Fernanda Timerman – são especialistas em abordagens comportamentais. Elas integram o Ambulim, programa de transtornos alimentares do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Trata-se de uma abordagem inovadora, amparada em evidências e artigos científicos. O objetivo é ampliar a atuação do nutricionista e mudar alguns rumos da atual visão restrita e dicotômica do saudável e não saudável”, disse Cynthia durante o Encontro Nacional de Atividades Físicas (Enaf), realizado em Caeté neste mês.

O resgate do prazer de comer, segundo ela, passa por não mais enxergar a comida apenas como nutriente. “A gente considera o comer um ato biopsíquico e sociocultural. Toda a indústria da dieta nos faz acreditar que nosso problema é saber o que comer, mas a gente acredita que o que vai fazer diferença na sociedade é a compreensão do como se come e do por que se come”, diz.

Resgatar sinais de fome e saciedade é uma das estratégias para ensinar o nutricionista a trabalhar. A ideia é fazer com que o paciente se conecte melhor com a comida e tenha menos compulsão. Para a nutricionista, é uma libertação da “ditadura fitness”, tão bem ilustrada em alimentos como clara de ovo, batata doce e frango.

“A gente propõe liberdade mesmo, libertação. O resgate do empoderamento e da capacitação individual para a competência do que comer. É o fim da ditadura da batata doce e do frango. Enquanto a gente achar que o nutricionista tem que ensinar a comer nutriente, a gente vai continuar esbarrando nesse processo”, diz. A nutrição comportamental não prescreve dietas. “Uma alimentação completamente prescritiva, na qual se come o que o nutricionista mandou, é completamente fora de moda. Enfim, não levamos em consideração, porque, se fosse só isso, saber o que pode e o que não pode comer, o mundo estava magro”, complementa.

Outra mudança proposta é em relação ao peso. Cynthia explica que nessa nova abordagem os números a menos na balança não são objetivo ou meta. “Toda vez que o foco é esse, gera frustração e não adesão. A perda de peso pode ser consequência, mas a meta, o objetivo, é a mudança de comportamento”, diz.

Contraponto. Para a nutricionista especialista em obesidade e diretora do Conselho Regional de Nutricionistas da 9ª Região (CRN9-MG), a nutrição comportamental não é nova, mas não era falada e praticada. “Não se trata de uma tendência, pois não é em todo paciente que pode ser utilizada, vai depender do objetivo e da situação”. Como a obesidade é multifatorial, diz ela, a nutrição comportamental deve ser vista como um recurso. “É mais uma ferramenta para auxiliar. Sozinha não funciona”, afirma.

Minientrevista

Cynthia Antonaccio
Nutricionista
Instituto Nutrição Comportamental


Quando o terror nutricional começou?

Sabe quando a comida passou a ser um problema? Quando inventaram a nutrição. Porque antes comer era só comer, era muito mais simples. A gente comia por sociabilidade, comia por necessidade. Na época em que o fogo foi inventado, os seres humanos se juntavam ao redor do fogo para cozinhar e contar histórias, para assar carne. A gente complicou quando a ciência da nutrição começou a existir. Ela (a nutrição) é mais nova, a comida é mais antiga. Enquanto continuarmos entendendo a comida do ponto de vista do ‘nutricionismo’, dos nutrientes, vamos acabar tendo problemas, porque vamos conseguir resgatar a natureza mais intrínseca da comida, que é trazer sociabilidade e conforto. É preciso fazer o resgate da cultura alimentar. Enfim, de que comer é um ato biopsíquico e sociocultural.

Por que periodicamente surgem dietas diferentes?

Cada vez que a gente causa uma frustração na sociedade, essa indústria cresce. A indústria da dieta, seja ela por meio de programas emagrecedores, novos regimes, novos livros, novas estratégias ou novos produtos, é uma indústria que vende. Então, quanto mais insatisfeito o indivíduo tiver, mais essa indústria vai vender. O que acontece é que quanto mais somos seduzidos por uma dieta, mais vamos ficando reféns dela. Toda vez que se restringe algo, toda vez que se faz dieta, aparece a compulsão, porque é um ciclo psicobiológico explicado pela ciência. Se você faz uma dieta, você tem uma restrição, isso leva a fome, carência, compulsão. E a compulsão, por sua vez, leva à culpa, e a culpa leva a fazer dieta de novo. É um ciclo que não tem fim.

Quando a pessoa consegue emagrecer?
Na hora que se estabelece a mudança de comportamento. Aí a gente vai, provavelmente, comer menos ou melhor, e o peso pode baixar. Não é que isso não vai acontecer, mas se a gente focar só nisso, o peso vai ser estático, vai ser momentâneo, e a gente não vai mudar de verdade.

Qual deve ser o papel do nutricionista?
Queremos tirar o papel do nutricionista policial para um profissional muito mais facilitador. Por isso, para toda consulta o profissional precisa ser capacitado. Uma das questões é trabalhar, por exemplo, a entrevista motivacional, que é toda uma condução da consulta para que o paciente seja mais participativo.

Como tem sido a adesão dos próprios profissionais?

A gente está criando uma coisa que está sendo até difícil de controlar. Está virando quase uma nutrição esportiva, mesmo a nutrição comportamental não sendo uma especialidade aprovada. Ela já está sendo reconhecido pelos profissionais, pelos indivíduos, pelas instituições, e, principalmente, pelas universidades. O Sesi já começou a adotar o nosso livro científico lançado em 2015.


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